Oi.

A vulnerabilidade sempre me assustou. Eu sempre quis mostrar a fúria e fria existência que eu era. Vez ou outra eu odiava quando falavam que eu amava alguém ou que alguém conseguia distinguir meus sorrisos. Costumava falar que a vida era grandiosa e havia fatos mais interessantes a serem relevados enquanto vivo. Acho que eu tinha medo de acostumar o meu olhar igualzinho aqueles que eu via na rua. Eu nunca quis ter aquela tristeza transpassada nos rostos pelas praças. E cada ano que passava eu acumulava forças pra exalar durante minhas convivências. Mostrar para os outros que eu era diferente e que eu poderia ser capaz de sorrir o tempo inteiro me fazia acordar e levantar pra dura realidade. Vencer era meu forte. Crescer era vital.
Perdi as contas de quantas pessoas vieram até mim e jogaram seus palpites ditando não existir alguém que fosse vulnerável a outro alguém. Fazia questão de discordar e mostrar (ao máximo) que há possibilidades. O mais engraçado é que hoje tenho que admitir que alguém não precisou exercer tanto esforço pra desativar toda força unida nos meus cofres mais profundos. Simples gestos conseguiram destruir o que tanto sofri pra consolidar dentre minha caminhada. Admito que sofrer por alguém é algo tão real quanto rir da roupa ridícula e alheia. É comum. O amor não é a chave que destrincha o segredo da felicidade. O amor exista – talvez – pra encarar aqueles rostos passíveis e dizer-lhe: viver é violento.
Pessoas vão ignorar seus sentimentos, vão rir ou desfazer qualquer frase tua com tentativa de reencontro. Tranquilamente, você não estará dentro do vínculo de prioridade de alguém e, incrivelmente, esse alguém será o bem maior da sua vida inútil.
Você (também) sempre vai ouvir palavras de que precisamos nos tornar fortes para tentar rebater fortemente os desafios incansáveis dessa única existência. Sua opinião será inválida e não padronizará método algum de reciprocidade.
Um dia, enquanto dorme, a incapacidade vai te acordar e, puramente, tu terás a certeza que o destino traça-se sozinho.

Velado

Chorar aquilo que ainda marca minha dor é algo interminável do lado de cá. Derramar sobre o leito esboçado toda àquela vontade extraordinária de unificar os seres em mim. Tentar calcular os passos daquela dança que preenchia minha rotina que quase virou novidade. Remar até o infinito e “desinfinitar”.
Mentes translúcidas costumam perder um mundo totalmente reverso e imaginário ao que existe real. Picar, em detalhes, a ventania que balançou – durante muito tempo – o leve formato capilar que hoje desaguou. Meu corpo era um museu, porém, o passado não quis entrar e distribuiu o que chamou de arte um dia. Antes, já fui mais desafiador e levei uma vida simplesinha. Minha geração rotulou o presente, desapaixonei. Quem sabe, outrora, aquele amor rolava corpo afora e fazia meu corpo sorrir em lugar qualquer. Estou engasgado com o que ainda prefere ficar enroscando minhas entranhas. Já que, desde tempos atrás, eu insisti no que era verdade em mim. Hoje sei que foi um vírus que, tão inútil, teve que instalar-se em mim para destilar essa dor até os trópicos do meu ser fisicamente.
Permaneço sem medo de gritar a insegurança que passeia entre os vasos sanguíneos que me sustentam atual. Fechar os olhos ficou mais fácil enquanto fui perdendo meus valores mais ingratos. Minha visão foi dilatada completamente. Até parei de respirar pra tentar a sorte de me juntar aos que, matematicamente, a 7 palmos estão. Entretanto, descobri que até os vermes mais grotescos abandonam essa carne impura quando o enterro tem fim. Subsequentemente, resguardei (e resguardo) meus sentimentos mais cruéis que não se despedem dos outros. Até jurei mudar, e ditei: mudei. Mas, por engano, continuei o mesmo. Sufocado com a latente frieza que meu músculo tornou-se. Parei de enviar informações ao meu coração tentando parar seus movimentos. Em vão.
Tento até hoje descobrir quantos barcos hão em mim.

O quão durará

Logo que joguei as constantes no ar, senti a avalanche que caía sem que percebessem. Rapidamente, como um animal faminto, corri até o objetivo mais próximo e quis garantir minha felicidade em curtos instantes. Ser exagerado não é fácil.
Pude, propositalmente, criar melodias e letras que conformassem aquilo que eu havia sentido naquele longo tempo. Eu continuo sentindo e acho que não vai fazer diferença eu ter olhos no ângulo da história toda. É fácil perceber que existem momentos propícios a mudar e existem renascimentos. Tão simples dizer que o amor é benéfico e que não doerá. E mudou, mas foi contrário ao que eu imaginava quando deitava minha cabeça meia-noite no travesseiro. Não descia lágrimas porque não havia nada dentro de mim. Não tinha porque a vida havia tirado o que restava pra que eu me reconstituísse. Odiar era minha fraqueza.
Tentei me prender no acaso pra acaso virar, porém, a rotina já me satisfazia e era tarde demais. Voltei a correr, dei meia volta e tentei contornar o que havia lançado pro alto. Percebi que a ingenuidade continuava dentro de mim martirizando minha esperança que teimava reinar meu ser. Tive vontade de dizer pra mim mesmo: “vou vencer!”. Não venci.
O mais difícil dessa história metódica era descobrir, por acaso, que não existia nenhum ser que entenderia tudo o que ousava passar dentro de mim. Tudo que, sem permissão, preencheu meu interior e arrancou, corajosamente, meu vácuo. Ali, naquele segundo, a esperança havia morrido e eu não tinha verdades pra chorar ou mentiras pra sorrir. Eu não tinha nada.
Passei a vagar descalço na areia até sentir enrugar minha pele e perder a pouca força que bravamente existia. Cansei de me esconder e agora levanto a cabeça pra que todos possam ver que a insignificância ousou vencer a vida e caminha sorrindo, mesmo que toda essa conversa seja exaustiva e trágica. Doei minhas perspectivas pro acaso que causou toda essa tragédia. Não morri, mas desisti.

Impunemente hostil

Um globo formado de antíteses que constituem a base de qualquer nação. Um contrariado de ideias que bagunçam a retórica e organizados com discursos eloquentes. Somos figuras penduradas em um universo empoeirado que vaga em um vácuo chamado cabeça. Cérebros cercados de planetas incabíveis que admitem personificar um povo até virarmos um só. Sentimentos inviáveis aos corações desapaixonados e disfarçados de amores que julgam tornar feliz qualquer alma inepta. Opiniões que insistem cuspir toda falta de sensatez diante o mesmo universo. Reclamamos patologicamente sobre as obsessões que ligam nosso mundo aos mundos exteriores. 

Ninguém parou pra pensar que caímos aqui por acaso. Riscaram nossa testa com os dizeres: “viva!” E desesperadamente corremos contra o tempo em busca desse viver. Partimos da ideia de que crescer é algo positivo e que ser melhor que alguém é alimento do Ego. Dirá o céu que se todo amor fosse à prova de ebó, seria “para sempre” como tanto lemos em velhas letras de muitas folhas. Nos obrigaram a morrer cautelosamente sobre esse solo que do nada veio, porém, antes de tudo devemos escrever nosso inventário sobre o que ficará para continuar uma história que já acabou. Insistir é característica mundial. Todos nós construímos nossas verdades absolutas que serão/são destruídas no leito da morte. 

 

Escravo da libertinagem sobre fiapos

Que as tuas mágoas sejam estarrecidas ao ventar fraco que bateu, pois nem da fome tu só vives. Amor, veja bem, dentre àquelas passagens que comprastes dias atrás, deixou-se cair, indevidamente, um leve rascunho que dizia amar-me tristemente. Que àquela tristeza tornou aquilo tão só e bem distante, pois até as mais belas flores fizeram-se murchas diante dos negros olhos teus. Que com àquela água foi-se de lavar o que fosse alma e que quaisquer que fossem negras sujas permaneceram. Mas que do futuro não se esperava nada, e que do passado não se deixava falar. Ao que com desdém fosse criado e ao que com seriedade não fosse obviedade. Que as tuas lembranças, meu bem, pudessem preconceber sem delimitar o que feito frasco quebrasse, pois diante de tudo haveria somente o sol à vista que, bravamente, continuasse lá e fosse o que, unicamente, não abandonasse os espíritos brutalmente. Feito rústica madeira pudesse bater e bater e como pressentimento viesse enxergar aos que voavam acima de ti, o que se via ao fundo era o enlouquecer da solidão, que de tão só era incapaz de suicidar-se enfim.

Cuestión

Entre todos aqueles delinquentes, eu estava deslocado e meu ângulo de visão não era o mesmo que havia guiado os passos que, lentamente, me levavam ao hemisfério no horizonte. Eu tinha convicção, mesmo desnorteado.
Durante muito tempo, pude acreditar que a cada nascer do sol eu poderia renascer e dedilhar meu destino inexistente. Friamente, a mesma amplitude do tal deserto, existia como sevícias ao pobre lar que de mim fugia. Pouquíssimas vezes (quase zero), eu falaria que dentre todos os perversos, o meu não passaria despercebido, porém, foi-se. Como o vento que tocou àquela presa, um dia, sumiu-se, desatinou-se. Minhas próximas dúvidas seriam repensar se eu voltaria como meu próprio herói ou se, desesperadamente, eu costuraria meus pequenos desfalques. Era de se imaginar, pois, bravamente, cortei o punho que já não era de serventia. Acaso tentasse voltar, francamente, destilaria vagarosamente o que tentasse infiltrar-se entre minhas dores novamente. Pudera, eu, perceber que até pelas urinas, a ureia, sinteticamente, formava-se contra meu desejo, ou teu. Do que vagava ao fim, minuciosamente, despejava pura fonte de ascensão.
Hoje, depois de surfar naquela balsa de pequeno porte, estou, enfim, do lado de cá. Contra tudo, contra todos, contra eles, contra os meus. Cá estou, cá ficarei, hão de crucificar, entretanto, calmante resistirei.
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Abnegação

O rock de verdade está naquelas coisas brancas e deslizantes do sertão. Eu andava sobre aquilo quando criança e volta ou outra caía sorridentemente. Eu também escrevia muitas cartas, porém, tão rebelde que mal conseguiu achar o caminho dos correios. Eu também fazia os próprios envelopes, eles me refletiam. Eu era muito detalhista e costumavam dizer que eu tinha muita delicadeza no que fazia. Imagina se descobrem o que eu escrevia? Era tudo que eu sentia, mas nem sempre (nunca) alguém entendia. E sinceramente, eu continuava sorrindo. No mínimo, eu imaginava aqueles carteiros enlatando àquelas palavras nas caixas de correio enquanto passeava pela primavera. Certamente, eu me perguntaria “por onde andarás?” E o que deveria me deixar feliz, me deixaria depressivo. Eu ouvia uma resposta como “Eu nem sei aonde estou.” A história não mudaria..

Mesmo assim, eu tinha um brio de nariz em pé. Eu era estranho pra todo mundo e conseguia correr na areia até me esconder naquelas coisinhas brancas. Isso sempre no fim da tarde, ao pôr. Aquilo era honroso. Eu sentia uma avalanche escura dentro de mim, porém a cor do céu era totalmente pecilocromática. Aquilo talvez fosse a única sensibilidade que não me foi passada hereditariamente.

Hoje eu sinto tudo isso como um ofidismo infinito. Eu abro a porta do quarto e as paredes costumam inchar contra mim. Hoje eu vejo todas elas como as teclas pretas de um piano. Hoje eu passei a ver uma imundice que prospecta a rejeição. As pedras (àquelas brancas) começam a despojar meus sentimentos sorumbáticos e correm nessas veias desvaindo meus sonhos. Eu joguei a caixinha fora ao perceber que aquilo não fazia mais sentido e nem tinha mais valor na minha vida. O que ainda permanece, involuntariamente, é o rock. Em qualquer esquina que eu passei, eu não o deixei. Tem coisas nessa vida que costumam ficar por puro altruísmo, e eu sei que você também sempre foi e sempre será um pouco egoísta.