Novidade horizontal

Busca. Busca… Meses, semanas, dias, horas… Cada passo, cada suspiro e cada gesto é propositalmente criado pela busca. Mudamos, criamos, pintamos, mas sempre buscamos. Um cabelo cortado busca um olhar sorridente, um papel amassado busca o impacto gravitacional, a pintura busca a mais triste alma, àquela alma funda e escura. O pincel corrói a força que dá essência ao nascimento do criar. O homem busca. Os dedos entrelaçados buscam a mais doce forma de carinho, a seca busca a sedenta sede humana, animal. Correr em busca de algo, pular, esforçar-se, gritar, buscar.
Do nascimento até aqui, busquei pular no mais profundo buraco esperando braços ou galhos lá embaixo pra segurar, não a mim, mas a dor que resolvi jogar. Tremi e abri os olhos, vi cores, conheci um mundo azul e brilhante, a partir disso, parei de buscar. Parei a busca e decidi andar sem um rumo fixo. Apostei em algo mais imprevisível e impactante, pois sabia que aquilo me preenchia, aquilo preenchia o vazio e a brancura do meu rancor. Sozinho, pisei firme, caminhei, girei catracas, sorri desesperadamente e gritei pro infinito. Subi escadas, abri portas, estourei balões, cantei e rimei. Concertei minhas ideais tão futuristas abotoando árvores num cemitério. Desliguei a tecnologia do fone e agucei os ouvidos aos pássaros. Assim como eles, sai da gaiola e voei. Não havia dinheiro, problema nem dor. Parei de bater em portas e decidi deixá-las abertas, cruzei todos os caminhos impensáveis. Fui chamado de louco, extremista e até a pior das calúnias: solitário. Não era novidade ignorar o falatório alheio. Ignorei e continua fixado em mim, em me “recosturar”, reconstruir a destruição que havia sido feita. Comprei tijolos e comecei o museu. Pintei cada sentimento numa tela e vibrei o martelo até pendurar cada quadro. Peguei as peças caídas do órgão pulsante e criei altares rodeados de fitas vermelhas pra não contrastar com a opção de expor cada pedaço significativo do músculo. Mostrei que até o pior ser humano pode se reconstruir em si mesmo, que uma construção vai além de um museu material, uma galeria artística, a construção é você, são suas obras, seus escritos, suas informações. Assim, vendi tudo, faturei, garanti, sem dinheiro algum, só com a felicidade cabendo aqui.

Esperando a volta dos Mecenas

Há dias tão claros ultimamente, galhos tão finos e nuvens vazias. Há um eu lúcido brigando com a própria bipolaridade de sentir luz entrando e trevas saindo. Ou o contrário. Faltou água aqui e ainda me sinto preenchido pelo amor ou por uma bolha gigante. Não estou tão aflito e tenho dado voltas pra fazer o que tanto gosto: desopilar. Tenho atravessado paredes e pulado janelas quando viajantes do tempo ou crianças histéricas aparecem à procura de diálogos. Pouco converso, pouco observo e mudo. Estou colocando leis e uma delas é mudar ou pensar em mudar a cada esquina cruzada, a cada trilho pisado e a cada raio de sol que dança com pele. Ouço vozes opiniosas e que, constantemente, distraem meus pensamentos e me levam a vários lugares e espaços geográficos sem que eu precise pegar uma locomotiva ou voar. Tenho oprimido minhas vontades e sempre digo não quando pedem pr’eu correr. Voltei a falar com algumas pessoas, mesmo tão desacreditado de comunicações olfativas. Prefiro árvores, imagens, fotografias, flores ou música.
Há fatos e projetos que ainda permanecem pelo mesmo motivo de precisar respirar. A arte invade, causa reflexões e prosas com dois lados (ou mais) que existam de mim. Dias atrás fiz analises de imagem e pude perceber bochechas com um rubor um pouco mais fraco como da vez anterior. A vez anterior não passava de minutos atrás e eu acabei pensando em como a velocidade de causas e tempo me assustam. Também não tenho preferências por um quarto maior, uma sala 6×6 ou box de vidro. Prefiro vozes e essas já tenho/escuto. Ah, lembrei de um ângulo não-tão-distante no cotidiano: a contradição. Ainda ouso contrariar paisagens e pensamentos confusos de grandes nomes e grandes homens para a humanidade. Até que enfim, parei pra pensar como isso é tolo. Até tive espasmos com alguns risos causados por uma semana caótica depois disso.
Me dei ao luxo e ao trabalho de observar os finos cabelos do céu às 16:59 da tarde. Rosados, azuis, lisos e mutáveis. Vi que só era piscar e desapareciam, mas continuavam lindos pós-pôr do Sol. Vi galhos virando veias, pulsando folhas ao universo e liberando vida à natureza em uma velocidade gigante. O fenômeno não me assustava, afinal, era tão natural quanto acordar, jogar o óculos no rosto e ouvir de si mesmo: estou vivo.

Oãça Cor

Estou triste pela minha incapacidade e, principalmente, pelas pessoas serem responsáveis por toda melancolia.. Estou mal pela minha indisposição ao sair, pelo asco que criei das ruas, do asfalto, das árvores e plantas, de roupas arrumadas e tênis fechados.. Estou fundo pela prescrição que criei de não receber nenhuma luz do certo e nenhuma atenção dos outros.

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Quero me esconder, quero fugir, sumir, quero deixar essa palhaçada de lado e viver sozinho, numa casa branca por fora e noite por dentro, sem energia, sem água, sem dependências.. É isso que me exclui. Não quero mais rodar, caminhar, tentar me encontrar, já que descobri que me escondo de mim mesmo desde o primeiro contato social que deu-se. Não quero descansar e nem cansar de ter escolhido ser como sou, não quero receber ordens e regras que outrora acatei. Não quero mais abraços, beijos e nem ouvir “eu estou aqui com você”, pois sei que tudo isso sempre foi irreal. Posso estar engasgado pela falta de vocabulário que deixei de falar, posso procurar a escolha errada e me jogar nessa tripulação, mas quem vai chegar pedindo stop ou pedindo pra que eu possa continuar aceitando sentimentos esmagados pelo remorso involuntário, quando outras verdades são mais relevantes que um pobre coração desconsolado vagando entre tantos outros?
Não haverá outras vezes, nem chances. Tudo já desabou e não existe voltas depois que se chega ao fim.

Más notícias

No último minuto da noite, suspirei. Escolhi a opção desligar e Speed Painting – Bob Ross parou de tocar. Lembro que aquele minuto foi o mais longo de todos. Antes que tudo sumisse, fechei os olhos e, além de estrelas, vi o quão cruel tinha me tornado e o quanto minha automutilação tinha sofrido uma freqüência significativa e rápida, tudo isso ultimamente. Não reclamei da música que parou, não tossi, não cuspi, nada fiz. Só fiquei analisando minha fraqueza que não tinha sistema, eu não sentia ela ficar inoperante durantes algumas horas, ela continuava lá, bem intacta e sólida. Comecei a pensar em uma vista além do apartamento, todo aquele mar me causava angústia por minhas frustrações criadas pela cabeça. Não admitia que algo ou alguém, conseguisse ser mais intenso e grandioso quanto minhas crises e convulsões durante a noite, por isso odiava o mar. Odiava mesmo. Em uma determinada época, cheguei a pensar que se o mundo explodisse e voltasse à sua origem Big Bang, eu, certamente, descansaria e suspiraria como naquele minuto. Consegui imaginar tudo aquilo durante 59 segundos e quando voltei a iluminar minhas pupilas, vi que eram 00:00. Houve morte cerebral no mesmo instante, feito zeros, eu estava vazio. Não continha sentido continuar cortando as asas de quem nunca voou.

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Ao eixo

Ultimamente tenho me sentido uma droga. Uma substância que vicia sem que haja limite. Vicio meu tempo à rotina que me cabe, não por escolha, mas pelas circunstâncias dos fatos. Ando com a garganta inflamada, a vista cansada e desfocada, porém, existe algo curioso nisso, só agora, com esses problemas, vejo que tudo o que traço é vigorosamente sem foco. Tento alcançar minhas mãos ao céu e pegar uma pequena dose de uma felicidade tão vazia e alta. E é assim que me sinto: vazio.
Cotidianamente, as pessoas me avisam que isso é tudo bobagem, que é tudo prático e satisfatório. Posso gritar em poucas palavras que estou deslocado do mundo. Sinto-me exausto e aqueles rostos que antes me completavam, não me fazem falta e até me causam refluxo.  Não quero parecer cruel e não sei ser assim, no entanto, já ficou claro que não serei eu que escolherei o que vai me levar ao ápice da vida. Não serão àquelas xícaras tão bem desenhadas e fraseadas que substituirão tudo o que antes transbordava de mim. Não bebo mais café e não enxergo mais as letras de Carl Sagan. Não sinto meu corpo entrar em arrepio ao digitar Chico Buarque no Google e apertar enter. Tenho visto que isso é pouco e só preenche o vazio que já me faz flutuar em mente confusa. Voltando às drogas, não posso dar um último trago quando percebo que o cigarro está apagado e quando nenhum fogo causaria fumaça em toda e qualquer dor. Isso não evaporaria tão rápido assim, seria sorte demais.
Não vou insistir que ninguém compreenda e não vou tentar explicar quando ouvir julgamentos inapropriados. Sei que todos já cansaram de minhas frases clichês e minhas conclusões absurdamente absurdas, porém, usamos as ferramentas que temos e buscamos preencher pensamentos com outros pensamentos não-poluentes. É assim que estou atualmente, não só fraco, mas também impuro e influente. Causo não só dor em mim, mas causo impacto e sustos nas proximidades que me cabem. Aliás, estou vendo que só isso está me cabendo, mesmo que embaçado.

Obsecre

Quando deito ali pelas três da madrugada, começo a pensar na força persuasiva que tenho sobre as pessoas, em contrapartida, também fico pensando no quão vulnerável elas me tornam. Alguns sabem dessa vulnerabilidade e forçam um escudo em minha volta, algo parecido com uma proteção forjada. Eu não reclamo, é natural. Ligo um pouco de Cícero no fone e passo a imaginar todas àquelas letras acontecendo na vida real. Eu sei que isso é patético, mas gosto de ouvi-lo durante minhas insônias. Depois eu começo a somar os títulos de Nietzsche ou Bukowski na tentativa de me satisfazer sozinho e me tornar independente das pessoas. Isso porque eu sei que viver sozinho é algo que se chega mais próximo da felicidade. 
Continha em mim vontades e sensações guardadas em uma urna com os dizeres: to understand. Isso era tão patético quanto minha incapacidade de descobrir o que aquilo era. Meus pés eram ilacrimáveis, mesmo sabendo que qualquer caminho que fosse seguir, tinha necessidade de agonizar até amenizar. 
Eu não gosto da palavra impossível, mas eu sei que as pessoas traçavam limites e empasses para tudo. Era algo tão necessário quanto beber dois litros de água diariamente e eu só bebia um ou dois copos. O que eu pensava e o que falava serviam de tendões ligados do mundo de Rimbaud à pura realidade rotineira. Mesmo tão independente, culpei de tudo a vida inteira me ditando perfeito. Culpava as pessoas por suas irregularidades e falácias, culpei a lua pela claridade que exercia quando tudo parecia escuro pra mim, também culpei o sol por me tornar tão dependente dele para me sentir vivo e culpei minhas palavras por serem tão doloridas quanto papéis regados de álcool e um palito aceso de fósforo, espirrando fogo em mim. Cuspi de volta radiatividade até desintegrar todas essas culpas no espaço em que vivo.
Sei que hoje respiro isso e tenho, como única particularidade e defeito: culpado. Sou tão espectador de um ônus criado de um lugar desconhecido que consigo me juntar aos outros e me mostrar tão normal para um anormalidade tão presente em mim. Isso me fere, como morder a própria boca até senti-la sangrar entre os dentes. E eu gosto tanto dessa irrealidade, que qualquer desenho moderno me atrai para essa modernidade e toda imagem real de alguém me causa repulsa e me torna uma guarida de sentimentos acomodados. Sei que com pouco esforço, seria capaz de dissolver um rivotril em meu cérebro e acabaria com toda essa melação.
No entanto, sei que todo mundo quer saber como você está ou com quem você está dessa vez, ou pra julgar se concordam ou não, ou pra rirem da sua cara lavada e pichada no meio da praça, ou enfim, para suprir o pão de cada dia que o Ego tanto roga.

Rubicundo

Um dia vou escrever sobre as ondas carregadas de fúria que levaram toda felicidade que um dia pastou em mim. Desde que aterrissei meu dirigível nessa terrinha, pude perceber a insignificância que gerei. Lembro que causei. Agora esses bichinhos de duas pernas pregam os olhos em mim e engrossam o rosto prum mundo tão forçado.
Dizem que quando a gente escreve e/ou fala tudo no diminutivo, a vida fica toda fantástica e carregada de magia, cês acreditam nisso?
Diziam isso pra mim o tempo inteiro e qualquer citação mesquinha de qualquer mesquinho vivo, eu custava falar pra, involuntariamente, distorcer essas teorias banais. Sugestivamente, eu olhava com finos olhares e acendia a pupila pra denotar alguma dica de sobreviver entre os restos de mortais que teimam viver. Isso me lembrava uma dor de cólica. Sabe, aquelas menininhas dançando e se contorcendo muito contemporâneo? Então. Aquilo é uma arte sem fim, aliás. Os movimentos causam uma beleza tão proporcional quanto àquela dor. Mas ai de reclamar de sofrer, de balançar uma varinha e findar aquilo num segundo. Minha mãe me disse uma vez que a mulher ao parir devolve uma parte do mundo que ela recebeu meses antes. Inclusive, essa minha mãe sabe a resposta de tudo, é toda absoluta e cheia de verdades. E mãe é mãe, né?
Ao resto das pessoas, bati as pestanas desde a puberdade e forço dúvidas frequentes e perguntas intermináveis sobre qualquer coisinha boba. Mas veja bem, quando eu era menorzinho e tinha acabado de pisar em solo terráqueo, eu brincava de pular corda decorosamente e ria um tanto muito mesmo daquilo. Hoje eu brinco de pular sentimentos, eu canso de me jogar no vazio e voltar todo caído de vácuo. Pufff! De vera, acho que sou vácuo mesmo, pelo menos um tempo atrás eu era seco mesmo, um tipo nobre com tentativa de burguês frustrado. Isso me delineava facilmente. Eu também seguia minha sombra onde ela fosse. É que acho que eu tô sempre precisando de um guia que segure minhas ideias e empurre-as pra algum caminho que julgue correto. Também não é nenhuma novidade que eu ando perdido faz tempo. Só não queria praticar aquele olhar tristonho que preenche o trânsito em um dia ensolarado.
Eu queria mesmo era acordar e voltar pra terra que nasci.